Na crise, cresce número de trabalhadores disponíveis e sem alternativa de emprego, lembra o Dieese. Assim, eles ocupam vagas que normalmente não aceitariam e “expulsam” empregados mais vulneráveis.


Levantamento elaborado pelo Dieese mostra que o mercado de trabalho foi “seletivo” na eliminação de postos de trabalho entre 2014 e 2017. Nesse período, o total de ocupados caiu em 1 milhão, passando para 91,4 milhões. “No entanto, o movimento não afetou a todos os trabalhadores: quem perdeu postos de trabalho foram aqueles que têm escolaridade mais baixa. A ocupação cresceu para quem tem mais anos de estudo”, aponta o instituto.
A reportagem é da Rede Brasil Atual.
De acordo com o estudo, feito com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, o total de ocupados com até o ensino fundamental completo, incluindo pessoal sem formação ou com até um ano de estudo, diminuiu em 4,8 milhões. Na outra ponta, aqueles que tinham ensino médio (incompleto ou completo) aumentou em quase 1,6 milhão e os trabalhadores com ensino superior completo cresceu em 2,2 milhões.
Desse último contingente, 62%, ou 1,3 milhão, ocuparam vagas que não correspondem a esse nível de escolaridade. E dos 810 mil em ocupações “típicas”, a maior parte ficou sem registro em carteira.
O fato de as empresas contratarem pessoal com mais anos de estudo não se traduziu em melhoria salarial. Independentemente da escolaridade, o rendimento médio real, descontada a inflação, caiu 4,4% entre 2014 e 2017, de R$ 2.132 para R$ 2.039. A queda foi até maior para ocupados com ensino superior completo: 9,7% (confira tabela).
A análise do Dieese mostra ainda que nem todos conseguiram emprego em uma ocupação considerada “típica” para sua formação, “como profissional liberal ou em cargos de maior complexidade relacionados à gestão e direção“. Daqueles 2,2 milhões de contratados com ensino superior, só 132 mil são diretores ou gerentes e 678 mil considerados profissionais das ciências e intelectuais. A maior parte – 1,3 milhão – se enquadrou em “funções mais rotineiras, administrativas e com exigências de conhecimento técnico/médio“. Assim, o total de trabalhadores em atividades “não típicas” aumentou de 5 milhões para 6,2 milhões.
Deterioração e precarização
Os números ilustram o grau da deterioração produtiva e do mercado de trabalho brasileiro: aumento da escolaridade dos ocupados, sem melhora da renda e com menor participação em ocupações de maior especialização“, afirma o Dieese. “Na crise, como há mais trabalhadores disponíveis, sem alternativa de emprego, muitos empregadores ‘aproveitam’ para contratar pessoal mais qualificado para postos e funções que não exigem escolaridade mais alta.
A consequência foi o aumento da presença de trabalhadores com ensino superior em “ocupações não típicas“. Segundo o levantamento, entre vendedores em domicílio, por exemplo, os ocupados com essa escolaridade aumentaram em 187%. A quantidade de condutores de táxis, automóveis e caminhonetes com esse perfil subiu 125%. Em serviços de limpeza de edifício, escritórios e hotéis, 117%. “Importante frisar que, quando aumenta o número de pessoas com ensino superior em funções que não demandam essa escolaridade, uma parcela mais vulnerável que ocupava esses postos é expulsa do mercado de trabalho“, lembra o Dieese.
Essa mudança de perfil não significa que a formalidade aumente. Entre 810 mil com ensino superior que conseguiram trabalho em ocupações “típicas”, só 172 mil tiveram a carteira assinada. Outros 331 mil entraram no mercado por conta própria e 145 mil como assalariados sem carteira, “reforçando o cenário geral de precarização das relações de trabalho“.